segunda-feira

_ Minha deusa, minha rainha.

Era assim que ele me chamava, menino bonito, novo e doce, louco pelas ranhuras que fazem desenhos nas solas dos meus pés, babando por sentir-lhes os cheiros, a volúpia das unhas vermelhas a tirar-lhe o sono.

Vezes sem conta pedi que me esquecesse, contei trapalhadas e desencantos para desfazer essa imagem de rainha que nunca me serviu, foi sempre em vão e acabei por ceder.

Escolhi o flat, o dia e a hora, e ele chegou muito tenso, nervoso, sem saber se ajoelhava ou me beijava o rosto, e isso me fez rir.

_ Vou abusar de você, lindinho. É o que você quer, não é? Tira a roupa.

A Chapada da Diamantina, seus morros e cachoeiras, as Tuileries, nada que eu já houvesse visto me parecia tão lindo.

Parado bem na minha frente ele era só o próprio coração aos pulos, medo e desejo, um corpo que ansiava calado pelo meu, presa não das minhas virtudes mas do seu próprio fetiche. Não era a roupa que ele despira que o deixava tão belamente nu, mas a verdade com que aceitava o próprio desvario, o jeito honesto de se mostrar como escravo dos meus pés vaidosos, tímido, temeroso e faminto.
Provoquei-o com os sapatos, depois pedi que os tirasse e observei o modo como admirava os dedos já marcados pelo bico fino e aspirava o aroma do couro misturado ao meu.

Poder oferecer-lhe o que tanto desejara, permitir que se fartasse dos meus pés e por eles gozasse; tudo isso me fez sentir a Grande Rainha da Generosidade.

A vaidade é mestra em disfarces.

terça-feira

De tanto eu insistir, finalmente aceitou apresentar-me aos seus amigos durante jantar que seria preparado por mim segundo as suas condições.

Eu devia deixar tudo ajeitado antes para não me ocupar durante a festa, e devia usar saia. Simples assim, festejei a conquista tão esperada e cuidei encantada dos preparativos.

_ Acho que está tudo pronto, estou bem assim?

_ Venha cá.

Fez-me debruçar sobre a mesa e aos pés dela algemou minhas mãos, vendou-me. Mesmo surpresa, algo receosa, não ousei fazer perguntas, não o agradavam e eu achei melhor dar-me por satisfeita que tivesse atendido aos meus pedidos, de toda forma por certo logo me soltaria, os convidados estavam para chegar. Esperei.

Afligiu-me o toque da campainha, e certa angústia me tomou quando ouvi vozes na sala antes de ser solta; que eu devia fazer, dizer boa noite, como vai?

_ Essa é a moça que eu queria te apresentar.

Silêncio.

Risos.

_ É linda, parabéns.

_ Venha, o que você bebe? Tem um vinho ótimo aqui.

Puseram-se a conversar como se eu não estivesse lá, e assim foi com os demais que chegaram, não sei quantas vezes a campainha tocou, quantas vozes diferentes zumbiam ao meu redor quando uma mão alisou-me a coxa. Ai. O riso dele, bonachão.

_ Pode apalpar à vontade, ela estava mesmo louca para conhecer vocês.

De quando em quando uma mão nos meus cabelos, sob a saia, sob a blusa, um dedo na boca que apenas entreabri mortificada, já não sabia se meu corpo parecia estalar pela dor da posição continuada ou pela tensão ininterrupta.

Depois de algum tempo começaram as despedidas, algumas acompanhadas de tapinhas no meu traseiro e agradecimentos pelo jantar, uma lágrima de alívio me escapou. Finalmente o silêncio outra vez, e então o barulho da chave nas algemas, deixei-me cair ao chão, encolhida, arfando, apalpando os braços.

_ Gostou do pessoal? Eles adoraram você.
Eu estava tranquila até que vi o Edu de botas. Botas cowboy por cima da calça, piscadela marota e comentários que só aos gays pertencem, minha mão voou na sua cintura:
_ Poxa, Edu, de botas?
Riu, debochado.
Depois o flagrei no quarto quando fui buscar minha bolsa, estava lá com o cara mais gato da festa, o rosto já vermelho da barba por fazer do outro. Mais do que fingir que não me viram, exibiram-se para mim. Beijando, apalpando-se os paus mutuamente, eis que surge uma bunda branca, prontamente agarrada por mão peluda, viram-se e sobra aos meus olhos o gato com as calças arriadas, por trás o Edu, e me olham. Foi como que hipnotizada que me adiantei, ajoelhei e passei a chupar aquele moço que se dava, lambendo as bolas de ambos, acompanhando seus movimentos, deliciando-me com o prazer alheio, o inusitado da cena, as mãos de um e de outro nos meus cabelos, a buceta montada no meu próprio tornozelo, e ainda não me dera conta de quem era quando gozamos os três.
Culpa das botas. Fetiche é coisa séria, e eram de cowboy.

quarta-feira

Percorro com o dedo a curva do teu ombro; cada pedaço da tua pele me impressiona vivamente, a espaços milimétricos vão brotando pintas, pelos, veias e planices; pequenos cenários em que adivinho tesouros guardados, resquícios de beijos, ventos marítimos, perfumes diversos.

A pele é um fino tecido a embalar teu corpo; intriga-me saber que ao tocá-la estou tão perto e distante de tudo - tudo! - que dá forma a ti, aí dentro a origem dos teus gestos, o ar que respiraste arfante ou descansado, as dores todas por que passaste, tua carne nutrida em repastos que desconheço, teu universo tão singular protegido e representado na fragilidade dos poros, células e terminações nervosas que se agrupam e ofereces ao meu toque.

Quando antes de mim o vapor do meu suor alcança o teu me comovo; é como um filho a realidade que criamos juntos, partículas infinitesimais combinando-se tão rápido que sequer percebemos; em cada uma delas um pouco do que sou e do que és e ainda assim nada concreto resta; não há resto, há processo.

Na língua o sal e as células mortas que te recobrem; lamber-te é então um jeito de tomar-te aos bocados; enquanto recebo aberta o que teu corpo expele também me aproprio de ti e te contamino; nos mesclamos aos poucos, lembrança a lembrança, fluído a fluído.

terça-feira

Azul, verde, marrom, verde, verde, verde, marrom, verde, verde, azul, azul, azul, azul.
Corríamos pelo canavial. Verde, verde, azul, azul, ssssssssit.
Vermelho.
_ Ah!
_ Que foi?
_ A folha cortou o meu braço.
_ Oh. Deixa ver.
Lambeu.
_ Eca, você não tem nojo?
_ Não, é doce, ó.
Lambia.
_ Hum, arde, e faz cócega, pára.
_ Não, espera, deixa.
_ Hahaha. Não, cócega, aí não cortou.
_ Mas aqui é doce.
_ Eca, aí é fedido, você tem cada gosto.
_ Não é, boba, é doce e ardido. Você ainda não tem pêlos?
_ Tenho! Já tenho, sim.
_ Tem nada. Meu pai diz que quando a gente está crescido aparecem os pêlos embaixo do braço. Você acha que já é moça?
_ É claro que sim.
_ Você já beijou?
_ Claro, muitas vezes.
_ Mentira.
_ Mentira nada.
_ Então me mostra.
_ Não!
_ Anda, me mostra.
_ Não, pára, me solta.
_ Aposto que eu beijo melhor do que você.
_ Beija nada.
_ Você nem sabe beijar que eu sei.
_ Então tá. Ó.

O mundo tremia no ritmo das cigarras, besouros, abelhas zonzas, as cores todas vibrando sob o sol forte e tudo era a Grande Ópera do Sítio, nossas bocas grudadas como ato final, dali para frente só correndo muito, todo o caminho de volta, pro coração voltar a bater.

quinta-feira

Todos fora, só os gatos pela frente na casa vazia. O pote de mel.
_ Vem, bichano, vem...
Deitada no sofá, nua, ia esfregando o mel na xoxota.
O gato fazia a festa.
Assim passavam as horas.

terça-feira

A mera visão de um controle remoto já lhe causava certo mal estar. Lembravam-na das cenas que revia infinitas vezes, rew, stop, play, rew, stop, play, até exasperar-se consigo mesma, mais uma vez sucumbira, escrava das ilusões perfeitas.

Não que gostasse do que via; na verdade detestava tudo, chocava-se com as cenas, sim, mas principalmente consigo mesma; quem é que era, o que a prendia àquilo, o que tinha em comum com os atos grotescos?

O desespero alheio, a impotência terrível diante do mal gigantesco, poderoso, as lágrimas, a dor descontrolada, tudo isso a fazia querer estatelar um dos vasos da sala na tela-portadora-do-pecado, mas não podia e via até o fim. E então tudo outra vez.

Era assim como uma droga, um chocolate proibido e secreto, a nota a quebrar o tédio como um acidente de carro num filme de Cronenberg.

segunda-feira

Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzu. O som do zíper correndo pelo couro da bota.

Toc. O salto batendo no chão de tacos.

Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzu.

_Espere, disse, erguendo a mão.

Ajoelhou-se, segurou no calcanhar e com cuidado descobriu o pé muito branco.

_ Você usa bota sem meia, observou.

Aproximou o rosto, aspirou solene, um tanto de carvalho e frutas vermelhas, talvez algo de amêndoas e terra, parecia que ia dizer algo assim, mas não, calou.

Logo a língua a deslizar por entre os dedos, os dentes raspando nas peles mais grossas, olham-se.

Na boca, todos os lugares por onde ela passou.
O perseguia faminta por todos os sonhos, os instantes guardados para os devaneios só seus eram sagrados e nem ao telefone atendia para não interromper um encontro imaginado. Era sempre ele brilhando no infinito, distante e atraente como uma estrela, visto não naquilo que era mas naquilo que anteviam seus desejos, as aspirações confusas pela sua porra e a voz que ela imaginava, as palavras e gestos que ela lhe dava para compor o desenho da sua pessoa intangível, tudo se resumindo num pau generoso a cuspir o fogo branco, nela, para ela, por cima e dentro dela.


Essa história durou meses, até que começou a incomodá-la, tinha medo de obsessões, dependência, fixação. Conheceu Roseli-dedos-de-anjo e parou de comer queijo brie. Ainda sonha com a porra-cometa-líquido, mas agora é sem querer.
Estávamos sob as árvores e eu não devia mas toquei seus lábios com os meus e te falei no ouvido: deixa eu te abraçar só um pouquinho, só isso, e você deixou.

Respirei fundo e fiquei ali, absorvida pelo prazer que aquele contato me dava, a rara sensação de paz.

E chega, um instante apenas é bom, bastante e tudo que podemos agora. Sorrimos e iniciamos uma conversa qualquer, nossas defesas estavam todas em pé e cautelosos tentávamos reafirmar a veracidade das palavras de outrora só que em outros moldes, e por isso procurávamos dominar velhos hábitos.

Na despedida meteu-me a mão pelo elástico do short e calcinha adentro.
_ Queria saber como você estava, sorriu.